
O que devia ser abundante acaba em migalhas. Com tanto que pode ser dado ficamo-nos pelas migalhas. Diante da riqueza não somos capazes de repartir às mãos cheias, perdemo-nos em migalhas mal repartidas. O que não se compra não se vende. O que não se paga não pode ser cobrado. O que não nos pertence não pode ser regateado. Na ganância de viver nem sequer aproveitamos o que damos às migalhas, com medo que o não mereça quem estende as mãos. Com medo que seja demais o que se oferece. Com medo que me perca no dar. Com medo de que a vida possa ser bonita e feliz no repartir? Com tanto que há, com tanto que temos, não sabemos repartir. Migalhas de amor. Sim! Migalhas de amor. Migalhas de amor que repartimos e com que nos contentamos quando no-las repartem porque não sabemos o que fazer ao amor. Não temos medo que acabe, não temos pena de o dar, não há outra razão para nos ficcarmos em migalha, senão o facto de não sabermos o que lhe fazer. Que fazer ao amor que todos temos? Que fazer ao amor? Reduzi-lo a migalhas é que não me parece bem. A migalha: daquele olhar, daquele gesto, daquela palavra, daquele momento, da resposta, da presença... migalhas com que me satisfaço... migalhas com que nos satisfazemos. Migalhas...



























