sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Migalhas


O que devia ser abundante acaba em migalhas. Com tanto que pode ser dado ficamo-nos pelas migalhas. Diante da riqueza não somos capazes de repartir às mãos cheias, perdemo-nos em migalhas mal repartidas. O que não se compra não se vende. O que não se paga não pode ser cobrado. O que não nos pertence não pode ser regateado. Na ganância de viver nem sequer aproveitamos o que damos às migalhas, com medo que o não mereça quem estende as mãos. Com medo que seja demais o que se oferece. Com medo que me perca no dar. Com medo de que a vida possa ser bonita e feliz no repartir? Com tanto que há, com tanto que temos, não sabemos repartir. Migalhas de amor. Sim! Migalhas de amor. Migalhas de amor que repartimos e com que nos contentamos quando no-las repartem porque não sabemos o que fazer ao amor. Não temos medo que acabe, não temos pena de o dar, não há outra razão para nos ficcarmos em migalha, senão o facto de não sabermos o que lhe fazer. Que fazer ao amor que todos temos? Que fazer ao amor? Reduzi-lo a migalhas é que não me parece bem. A migalha: daquele olhar, daquele gesto, daquela palavra, daquele momento, da resposta, da presença... migalhas com que me satisfaço... migalhas com que nos satisfazemos. Migalhas...

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Perguntas

Como se pode viver sem responder às perguntas que se levantam dentro de nós? Esta pergunta, assim formulada, não é minha mas o seu conteúdo tem todo o sentido e poderia muito bem ter sido eu a fazê-la. De algum modo tenho-a feito de outras formas. Realmente como é possível viver sem responder? Fico a pensar se será possível viver sem perceber as perguntas que se formulam dentro de nós? Talvez fosse a única hipótese de alguém poder viver realmente sem precisar de responder a estas perguntas existenciais que se vão formulando em nós. Mas percebi que pode haver também que viva de tal modo alienado da vida que não precisa de perguntas nem de respostas para viver. Vive no meio das suas drogas e isso lhe basta. Pode também acontecer que alguém se distraia com a loucura que a própria vida proporciona para fugir das perguntas e não ter que lhes responder. Em todo o caso o que eu quero aqui dizer é que não vive quem não enfrenta as perguntas e não se decide a dar-lhes resposta. São perguntas tão essenciais como as escolhas, as opções, as decisões. São perguntas que fazem a diferença entre viver e andar ao acaso. Tão fundamentais para não andar à deriva mas ter um rumo certo. É a diferença entre o saber e o não saber, o querer e o não querer nada, entre o ir e o nunca partir

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Pensamento diário

"Amor fraterno não é apenas um sentimento, como uma simpatia ou afecto para com o outro, é uma inspiração de gestos concretos como a partilha os bens, a hospitalidade, o serviço, o perdão." (Jean-Marie R. Tillard)

domingo, 29 de agosto de 2010

O mundo está sempre a florescer


Para aqueles que frequentam o jardim
O mundo está sempre a florescer
Longe de mim diminuir o louvor

Poema: José Tolentino Mendonça

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O vencedor aprende com o vencido

Os exércitos de Alexandre o Grande preparavam-se para tomar uma cidade na África. Mas as portas se abriram, sem resistência; a população era quase toda feminina, já que os homens haviam morrido nos combates contra o conquistador.
No banquete da vitória, Alexandre pediu que lhe trouxessem pão. Uma das mulheres trouxe uma bandeja de ouro, coberta de pedras preciosas, com um pedacinho de pão ao centro.
“Não posso comer pedras preciosas e ouro; o que pedi foi pão!”, bradou.
E a mulher respondeu: “Alexandre, não tem pão em seu reino? Precisava vir buscá-lo tão longe, matar tanta gente por causa disso?”
Alexandre continuou suas conquistas, mas – antes de partir dali, mandou gravar numa pedra:
“Eu, Alexandre o Grande, vim até a África para aprender com estas mulheres que as vezes a ambição pode não levar a nada”. Paulo Coelho

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Leproso


O leproso agora sou eu.
O Arcebispo de Tanger, Santiago Agrelo, faz uma relfexão sobre o evangelho e conta como ele um dia se deu conta de que o leproso a quem Jesus toca e cura é ele. Diz ainda que nesse dia aprendeu a olhar para si mesmo de outro modo, não já com julgamento e condenação mas com agradecimento para com Aquele que o curou. Diz ainda que, nesse dia aprendeu a olhar para os outros sem condenação mas com o amor daquele que nos cura a todos da lepra. Na verdade, diz ele ainda, na Igreja somos todos leprosos. Uns foram curados, outros não querem ser curados, outros não sabem que são leprosos, outros não sabem que podem ser curados, outros foram curados e não sabem, mas todos somos leprosos. Nenhum de nós se curou a si mesmo e nenhum de nós pode curar os outros. Todos recebemos de graça, a graça que transportamos em vasos de barro.
Gosto muito deste senhor e do que ele escreve. Quando for grande quero ser como ele.

sábado, 21 de agosto de 2010

Perder

Perdemos tantas coisas. Ficamos tantas vezes a olhar para trás, para o que, dizem, a vida leva. Eu prefiro dizer, para o que já vivemos ou não vivemos porque não quisemos e desperdiçámos. De facto perdemos muitas coisas, mas... nem tudo o que perdemos é muito importante. Há, no entanto, algumas coisas que o são. Perdemos, hoje só quero dizer isto, as pessoas. Perdemo-nos uns dos outros só porque naquele dia, naquele, lugar, àquela hora as coisas não correram bem. Ou porque naqueles dias, daquela fase da nossa vida, nada correu bem. Ou porque durante tempo, da nossa vida, sabe-se lá porquê não entendemos bem as coisas que ocorreram. Ou ainda porque em circunstâncias zen, não estavamos ou não estavam para nos aturarmos uns aos outros com as esquesitices de cada um. Tudo passou, todos mudámos, todos somos diferentes e estamos a perder. Estamos pelo menos a perder-nos uns dos outros, sem querer, mas de facto. E tanto que temos para dar uns aos outros. E tanto que há para receber uns dos outros. E quanto poderíamos viver e não vivemos apenas porque não queremos e não queremos porque ficámos fechados naquele dia, naquele lugar, naquela hora em que as coisas não aconteceram como queríamos e julgamos que vai ser assim para sempre. Podia, pode sempre ser diferente se... eu quiser.

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Mergulho


Mergulho no dia como em mar ou seda
Dia passado comigo e com a casa
Perpassa pelo ar um gesto de asa
Apesar de tanta dor e tanta perda.


Poema: Sophia de Mello Breyner
Fotografia: Juan Pavon

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Pensamento diário

Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

Mario Quintana
Fotografia: Richard Armstrong

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Mesmo nos meus sonhos...

Mesmo nos meus sonhos
nunca me lembro de ti -
que estranho é agora
só de ver a tua letra
ficar a recordar-te...
Poema:Isumi Shikibu
Fotografia: Revonda G

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Compaixão

O espaço dos abraços, dos afectos, dos encontros é a compaixão. Passamos. Andamos. Corremos. Temos caminho. Há um percurso. Imagens. Pessoas. Vidas. Lugares. Acontecimentos. Tudo passa por nós. De tudo o que passa apenas fica em nós aquilo que foi banhado pela compaixão. Tudo o resto é pouco, pobre e muitas vezes nada. A paisagem é linda. A pessoa foi fantástica. O cinema excelente. A música divinal. Passou. Em que ficou apenas a compaixão. Dada ou recebida. Fica em mim a compaixão.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Cada pessoa que passa na nossa vida

«Cada pessoa que passa em nossa vida
passa sozinha,
é porque cada pessoa é única
e nenhuma substitui a outra!
Cada pessoa que passa em nossa vida
passa sozinha
e não nos deixa só,
porque deixa um pouco de si
e leva um pouquinho de nós.
Essa é a mais bela responsabilidade da vida
e a prova de que as pessoas
não se encontram por acaso.»
........................................
Autor: Charles Chaplin


sábado, 7 de agosto de 2010

As palavras

Escuto só as tuas palvaras.
Tenho o presente a partir
da minha fraqueza.
Chega até mim
quem me explica
a luz destes dias.

Poema: Rui Miguel Ribeiro
Fotografia: Dirk Juergensen

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

“Não tenhais medo do silêncio”, pede Bento XVI

“Ele [Papa Celestino V] pôs-se a viajar em busca da verdade e da felicidade, pôs-se em busca de Deus e, para ouvir sua voz, decidiu desligar-se do mundo e viver como eremita. O silêncio passa a ser assim o elemento que caracteriza sua vida quotidiana”.
Para nós, acostumados a viver “numa sociedade para qual todo o espaço e todo o momento devem ser ‘preenchidos’ com iniciativas, actividades e sons”, a verdade é que “com frequência não resta tempo para escutar e para dialogar”, razão pela qual o seu testemunho ganha especial importância, observou o Papa.
“Não tenhamos medo de fazer silêncio dentro e fora de nós, se quisermos ser capazes não apenas de perceber a voz de Deus, como também a voz dos que estão ao nosso lado, a voz dos outros”, exortou.
Bento XVI, nos 800 anos do nascimento de Pietro da Morrone, que se tornou Papa com o nome de Celestino V, eleito em 1294, tendo renunciado poucos meses mais tarde para regressar à vida de eremita.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Da visita de um anjo

O “Verba Seniorum” – coleção de textos sobre os monges que viviam no deserto, no começo da era cristã – conta a história de um ermitão que conseguiu jejuar durante um ano, comendo apenas uma vez por semana.
Depois de tanto esforço, pediu que Deus lhe revelasse o verdadeiro significado de determinada passagem bíblica. Não escutou nenhuma resposta. “Que desperdício de tempo”, disse o monge para si mesmo. “Fiz todo este sacrifício e Deus não me responde! Melhor sair daqui e encontrar algum outro monge que saiba o significado deste texto”.
Neste momento, apareceu um anjo. “Os 12 meses de jejum só serviram para você acreditar que era melhor que os outros, e Deus não escuta os vaidosos”, disse o anjo. “Mas quando você foi humilde, e pensou em pedir ajuda ao seu próximo, Deus me enviou”.
E o anjo revelou ao monge o que ele queria saber. Paulo Coelho

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Pensamento diário


"Aqueles que passam por nós, não vão sós... deixam um pouco de si e levam um pouco de nós."
Antoine de Saint-Exupery

Há dias...
Há palavras...
Há momentos...
Há inesperados...
Há olhares...

Que provocam serenidade e nos sossegam a alma!

domingo, 1 de agosto de 2010

Nossa Senhora da Assunção

Inicia-se hoje pelas 18 horas, com a Procissão do Santuário para Vilas Boas, a Grande Romaria de toda esta zona pastoral.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Ilusão

Amanhã vou ser... ontem era melhor.
Ilusão das ilusões, tudo é ilusão.
A vida ajusta-se no aqui e agora. Ajustar a vida às circunstâncias concretas do momento presente. Afastar a ilusão da visão distorcida que fala de um passado que já não existe. Um passado que não foi melhor que o presente mas, mesmo que tenha sido, já aqui não está. Afastar a ilusão de um futuro em que tudo será melhor, é vender a oportunidade do presente, como se o futuro se fizesse a si mesmo e não tivesse que ser, necessariamente fruto do presente que se assiste. Ajustar a vida ao momento presente tornando-o rico de verdade para que seja fonte da oportunidade do amanhã que não existe ainda, mas que virá irremediavelmente depois deste presente.
Ajustar a vida ao presente para realizar acções inteligentes que não comprometam o futuro nem se prendam irracionalmente ao passado. Ajustar, sem ilusões, a vida real que nos é dado viver.

domingo, 25 de julho de 2010

Comportamento

"O comportamento humano dito normal é apenas uma questão de consenso; ou seja, se muita gente pensa que uma coisa está certa, esta coisa passa a estar certa.
Existem coisas que são governadas pelo bom-senso humano: colocar os botões na frente da camisa é uma questão lógica, já que ficaria muito difícil abotoá-los de lado, e impossível abotoá-los se estivessem nas costas.
Cada ser humano é único, com suas próprias qualidades, instintos, formas de prazer, busca da aventura. Mas a sociedade termina impondo uma maneira coletiva de agir – e as pessoas não param para perguntar o porquê. Apenas aceitam.
É grave querer ser igual, porque isso é forçar a natureza, é ir contra as leis de Deus – que, em todos os bosques e florestas do mundo, não criou uma só folha igual a outra." Paulo Coelho

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Quem sabe o que é uma benção

"O velho chinês conhecia os sinais. Certo dia, o cavalo de seu filho sumiu; todos se entristeceram, menos o pai. “Quem sabe se isto não é uma benção?”, comentou.
Seis meses depois o cavalo voltou, junto com uma bela égua. Todos exultaram, menos o pai, que disse: “quem sabe se isto não é um desastre?”
O filho montou, caiu e quebrou a perna. Todos reclamaram, menos o pai: “quem sabe se isto não é uma benção?”
Uma semana depois, os jovens da cidade foram chamados para lutar contra os mongóis. Todos morreram, O rapaz com a perna quebrada não pode ir – e sobreviveu.
As bênçãos podem ser desastres, e os desastres podem ser bênçãos."Paulo Coelho

terça-feira, 20 de julho de 2010

Invencível

É verdade que não depende de ti o tempo que fará hoje. Não depende de ti se irás ter algum azar. Não depende de ti que alguém te trate mal. Mas depende de ti a atitude com que estejas durante o dia. Depende de ti que estejas ou não estejas centrado no essencial. Depende de ti que não te deixes dominar pelo que os outros dizem ou pensam.
Por isso, não te importes com ventos e tempestades. Não te importes com ladrões e salteadores. Não te importes com insultos e críticas. Tens um lugar em ti onde nada pode entrar. Tens um lugar em ti que ninguém pode conquistar.
Tu és o senhor do teu destino. Tu és o senhor da tua alma. De entre todas as tuas qualidades - nunca te esqueças - é a pequenez que te torna invencível.

domingo, 18 de julho de 2010

O viajante silencioso

O governador e sua comitiva estavam em um trem, quando notaram, no mesmo vagão, um senhor mal-vestido, com os olhos fechados. Alguém resolveu afastá-lo dali, mas o governador impediu; aquela criatura serviria para distraí-los durante a viagem.
Provocaram o homem durante todo o trajeto, com gracejos e humilhações.
Quando chegaram à estação, porém, viram que muita gente viera receber o estranho: tratava-se de um dos mais conhecidos rabinos da América, e seus seguidores tinham ajudado a eleger o governador.
Imediatamente, este se deu conta do erro. Puxando-o para um canto, pediu:
“Perdoa as nossas brincadeiras e abençoa-nos, rabino”.
“Eu posso abençoá-lo, mas não posso perdoá-lo. Naquele trem, eu estava, sem querer, representando todos os homens humildes deste mundo. Para receber o perdão, percorra a terra inteira, e se ajoelhe diante de cada um deles”. Paulo Coelho

sábado, 17 de julho de 2010

Põe-te em forma...

Ok, prometo:
- comer menos, andar mais, saltar um pouco, brincar até cair, fazer natação e ler um pouco.
Bom conselho para cada um ... divirtam-se .

sexta-feira, 16 de julho de 2010

terça-feira, 13 de julho de 2010

A mesma viagem

Fazemos todos a mesma viagem. Vamos dizendo: "eu sou isto... eu sou aquilo... meu pai era... minha mãe foi... tive uma casa em... estava a estudar no... estivemos juntos na uni... acabei com a nota x... viajei por..." mas no fim fazemos todos a mesma viagem. A mesma estrada, os mesmos passos, o mesmo caminho. botas rotas, olhar cansado, desalinho na alma, coração rasgado, mãos gretadas, figado irritado, surdez crónica, visitas inesperadas.
O mesmo caminho e a mesma viagem. Isto pode ser triste... mas também pode ser alegre.

sábado, 10 de julho de 2010

A reflexão

“Nós já dialogamos naturalmente com Deus, através da oração. Rezar é quebrar o silêncio. E a necessidade de reconhecer e ser reconhecido. Rezar é o som criado pelo mais profundo de nossos sentimentos”.

“Eu não estou falando apenas das preces formais que costumamos dizer na igreja ou no quarto, antes de dormir. Eu falo daqueles vestígios, fragmentos de oração que as pessoas usam, mesmo dizendo que não acreditam em nada, sem sequer se darem conta de que estão rezando. Algo inesperado acontece, e as pessoas dizem ‘Meu Deus!’, ou então, ‘Nossa Senhora!’, e ali está uma prece, muitas vezes escondida, proferida com vergonha, medo do ridículo, escondida sob a forma de blasfêmia”.

“A oração é um instinto humano de se abrir naquilo que tem de mais profundo. É impossível evitar este instinto. De uma maneira ou de outra, todas as pessoas rezam e rezaram deste o início dos tempos”.
De Frederick Buechner (The magnificent defeat):

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Um par de razões

Não fazemos nada que não seja motivado por razões exteriores ou interiores que suportam toda a acção. Podem ser razões fúteis ou plenamente fundidas na existência profunda do ser. Mas há sempre razões que determinam todas as coisas. Há coisas e coisas e há razões e razões. Um par de razões fazem falta para sustentar toda a vida, determinando-a num único e mesmo rumo, sem vacilar, consciente de que não há outro caminho nem outro lugar, onde queira estar. Um par de razões que permanecem para sempre como fonte segura que alimenta a decisão. Um par de razões sem refúgio mas claras e certeiras de todas as outras decisões, pensamentos, vontades e sentimentos. Um par de razões que não precisam justificação nem requerem julgamento posterior. Um par de razões que valem por si mesmas. Um par de razões que forjam a vontade e determinam a palavra. Um par de razões que são razão de toda a vida. Por um par de razões se vive para sempre um único e mesmo ideal. Procura-se um par de razões que possa ser razão para toda a vida.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Belo

Em busca desse Lírio de brancura
Que um instante somente em toda a vida
Lhe amaciou d'arminho a sorte dura...

E sua alma, qual folha desprendida
Do seu corpo - arbusto muito fino -
Pelo vento do amor ia perdida,

Naufragando nesse Éter cristalino
Que embalsama o ar do nosso sonho,
Que nos esconde o ideal divino!...

Poema: Teixeira de Pascoaes
Fotografia: Don Paulson

domingo, 4 de julho de 2010

A casa térrea

Que a arte não se torne para ti a compensação daquilo que não soubeste ser
Que não seja transferência nem refúgio
Nem deixes que o poema te adie ou divida: mas que seja
A verdade do teu inteiro estar terrestre

Então construirás a tua casa na planície costeira
A meia distância entre montanha e mar
Construirás - como se diz - a casa térrea -
Construirás a partir do fundamento

Poema: Sophia de Mello Breyner
Fotografia: Dyuti Majumdar

sábado, 3 de julho de 2010

Bom conselho

Põe sempre os nomes aos bois
Nas histórias que contares.
Ou logo os burros depois
Se queixam de os retratares:
"Mas são as minhas orelhas!
Este azurrar é o meu!
Se estas são minhas guedelhas!
Ai este burro sou eu!
Não me nomeie ele embora,
Toda a Pátria vai agora
Saber-me por burro, hin-hã!
Ai que eu, hin-hã, hin-hã!"
- Quiseste a um burro poupar...
Logo doze hão-de zurrar.

Poema: Heine
Fotografia: Simon Jenkins

sexta-feira, 2 de julho de 2010

cerâmica

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
ela nos espia do aparador.

Poema: Carlos Drumond de Andrade