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domingo, 27 de setembro de 2015
sexta-feira, 6 de março de 2015
De olhos postos na cruz
Senhor
Quando eu tiver
fome,
que haja alguém a
quem eu tenha de alimentar.
Quando eu tiver
sede,
que haja alguém a
quem eu tenha de saciar.
Quando eu tiver
frio,
que haja alguém
para eu vestir.
Quando eu estiver
triste,
que haja alguém
para eu consolar.
Quando estiver
pesada a minha cruz,
que eu ajude outro
a carregar a sua.
Quando eu estiver
pobre,
que haja alguém a
quem eu tenha de dar esmola.
Quando eu não
tiver tempo,
que haja alguém a
quem eu deva entregar parte do meu.
Quando for
humilhado,
que haja alguém
que tenha de louvar.
Quando eu for
ferido,
que haja alguém a
quem tenha de curar.
Quando estiver
desanimado,
que haja alguém a
quem tenha de levantar.
Quando tiver
necessidade de compreensão,
que haja alguém a
quem tenha de dar a minha.
Quando tiver
necessidade de que alguém se preocupe comigo,
que tenha eu de me
preocupar com os demais.
Madre Teresa
segunda-feira, 19 de janeiro de 2015
A graça de ser...
Não te peço mapas,
peço-te caminhos.
O gosto dos caminhos
recomeçados, com as suas surpresas, suas mudanças, sua beleza.
Não te peço coisas
para segurar,
mas que as minhas
mãos vazias se entusiasmem na construção da vida.
Não te peço que
pares o tempo na minha imagem predilecta,
mas que ensines meus
olhos a encarar cada tempo como uma nova oportunidade.
Afasta de mim as palavras
que servem apenas para evocar cansaços, desânimos, distâncias.
Que eu não pense
saber já tudo acerca de mim ou dos outros.
Mesmo quando eu não
posso ou quando eu não tenho,
sei que posso ser,
ser simplesmente.
É isso que eu te
peço, Senhor: a graça de ser."
sexta-feira, 27 de junho de 2014
Sonhe e vá...

"Sonhe com o que você quiser.
Vá para onde você queira ir.
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
Seja o que você quer ser, porque você possui apenas uma vida
e nela só temos uma chance de fazer aquilo que queremos.
Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz."
Clarice Lispector
sexta-feira, 13 de junho de 2014
Pelo sonho é que vamos...
"Pelo sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia a dia.
Chegamos? Não chegamos?
- Partimos. Vamos. Somos."
Sebastião da Gama
domingo, 1 de junho de 2014
Terei palavras ...
Estarei ainda longe de Ti,
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós, que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
Manuel António Pina,
Nenhum Sítio (1984)
quem quer que sejas ou eu seja?
Cresce a noite à minha volta,
terei palavras para falar-Te?
E compreenderás Tu este,
não sei qual de nós, que procura
a Tua face entre as sombras?
Quando eu me calar
sabei que estarei diante de uma coisa imensa.
E que esta é a minha voz,
o que no fundo de isto se escuta.
Manuel António Pina,
Nenhum Sítio (1984)
sábado, 17 de maio de 2014
quinta-feira, 20 de março de 2014
Peço-Te
Chamo-Te porque tudo está ainda no
princípio
E suportar é o tempo mais comprido.
Peço-Te que venhas e me dês a liberdade,
Que um só de Teus olhares me purifique e
acabe.
Há muitas coisas que não quero ver.
Peço-Te que sejas o presente.
Peço-Te que inundes tudo.
E que o Teu reino antes do tempo venha
E se derrame sobre a Terra
Em Primavera feroz precipitado.
Sophia de Mello Breyner
Andresen
segunda-feira, 17 de março de 2014
Devagar...
Não: devagar.
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar…
Sim, devagar…
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar…
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima…
Talvez isso tudo…
Mas o que me preocupa é essa palavra devagar…
O que é que tem de ser devagar?
Se calhar é o universo…
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
Devagar, porque não sei
Onde quero ir.
Há entre mim e os meus passos
Uma divergência instintiva.
Há entre quem sou e estou
Uma diferença de verbo
Que corresponde à realidade.
Devagar…
Sim, devagar…
Quero pensar no que quer dizer
Este devagar…
Talvez o mundo exterior tenha pressa demais.
Talvez a alma vulgar queira chegar mais cedo.
Talvez a impressão dos momentos seja muito próxima…
Talvez isso tudo…
Mas o que me preocupa é essa palavra devagar…
O que é que tem de ser devagar?
Se calhar é o universo…
A verdade manda Deus que se diga.
Mas ouviu alguém isso a Deus?
Álvaro de Campos
quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014
Escuto mas não sei...
Escuto mas não sei
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Sophia de Mello Breyner Andresen,
em Obra poética I, Circulo de leitores
Se o que oiço é silêncio
Ou Deus
Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do universo
Me decifra e fita
Apenas sei que caminho como quem
É olhado amado e conhecido
E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco
Sophia de Mello Breyner Andresen,
em Obra poética I, Circulo de leitores
sábado, 15 de fevereiro de 2014
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
"Descalço venho dos confins da infância
Que a minha infância ainda não morreu.
Atrás de mim em face ainda há distância
Menino Deus, Jesus da minha infância,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
Venho da estranha noite dos poetas,
Noite em que o mundo nunca me entendeu
Vê trago as mãos vazias dos poetas.
Menino Deus, amigo dos poetas,
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
Feriu-me um dardo, ensanguentei as ruas
Onde o demónio em vão me apareceu.
Porque as estrelas todas eram suas
Menino irmão dos que erram pelas ruas
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu
Ó meu irmão Jesus, triste como eu
Ó meu irmão, menino de olhos tristes,
Nada mais tenho além dos olhos tristes
Tudo o que tenho, e nada tenho, é teu!"
Pedro Homem de Mello
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Só no interior
Nada tão silencioso como o tempo
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor de pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
O tempo caladamente persegue
O sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, como o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
O tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão,
in Cenas Vivas, Relógio d'Água
no interior do corpo. Porque ele passa
com um rumor de pedras que nos cobrem,
e pelo sonoro desalinho de algumas árvores
que são os nossos cabelos imaginários.
Até nas íris dos olhos o tempo
faz estalar faíscas de luz breve.
Só no interior sem nome do nosso corpo
ou esfera húmida de algum astro
ignoto, numa órbita apartada,
O tempo caladamente persegue
O sangue que se esvai sem som.
Entre o princípio e o fim vem corroer
as vísceras, que ocultamos como a Terra.
Trilam os lábios nossos, à semelhança
das musicais manhãs dos pássaros.
Mesmo os ouvidos cantam até à noite
ouvindo o amor de cada dia.
A pele escorre pelo corpo, como o seu correr
de água, e as lágrimas da angústia
são estridentes quando buscam o eco.
Mas não sentimos dentro do coração que somos
filhos dilectos do tempo e que, se hoje amamos,
foi depois de termos amado ontem.
O tempo é silencioso e enigmático
imerso no denso calor do ventre.
Guardado no silêncio mais espesso,
O tempo faz e desfaz a vida.
Fiama Hasse Pais Brandão,
in Cenas Vivas, Relógio d'Água
quinta-feira, 5 de dezembro de 2013
Não o procures...
Não o procures perto do mar,
não o procures
nas colinas.
Se o não descobres nos fenos,
se o não pressentes nas fontes,
procura-o nesta canção.
O seu canto vem doutro rio,
a fêmea doutro lugar.
Só quem ama assim as aves
traz o sol todo na mão.
O pão alvo está na mesa,
as azeitonas, o vinho,
ao lado a rosa, também ela
trazida doutra canção.
Não tardará que o melro branco
venha comer contigo
e com a luz fina de Abril.
Assim há-de cantar um dia
a terra
o seu coração pueril.
Eugénio de Andrade
não o procures
nas colinas.
Se o não descobres nos fenos,
se o não pressentes nas fontes,
procura-o nesta canção.
O seu canto vem doutro rio,
a fêmea doutro lugar.
Só quem ama assim as aves
traz o sol todo na mão.
O pão alvo está na mesa,
as azeitonas, o vinho,
ao lado a rosa, também ela
trazida doutra canção.
Não tardará que o melro branco
venha comer contigo
e com a luz fina de Abril.
Assim há-de cantar um dia
a terra
o seu coração pueril.
Eugénio de Andrade
domingo, 24 de novembro de 2013
Dá-me a tua mão..
"Dá-me a tua mão:
Vou agora contar-te
como entrei no
inexpressivo
que sempre foi a minha busca
cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o
número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério
e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música
existe uma nota,
entre dois factos existe um
facto,
entre dois grãos de areia por
mais juntos que estejam
existe um intervalo de
espaço,
existe um sentir que é entre o
sentir
- nos interstícios da matéria
primordial
está a linha de mistério e
fogo
que é a respiração do
mundo,
e a respiração contínua do
mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio."
Clarice Lispector
terça-feira, 5 de novembro de 2013
O meu olhar...
"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..."
Alberto Caeiro, in "O Guardador
de Rebanhos"
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